Bem, é um fato que esse blog é escrito de mim para mim mesmo, mas beleza, já me conformei. Eu sei que não posto há eras, mas esse blog me trás algumas lembranças ruins e acho que por isso não passei mais por aqui. Mas o passado faz parte da evolução, é o adubo do futuro, então nada mais justo que plantar sobre ele. E este primeiro post a ficar sobre o adubo foi motivado por uma magnífica conversa que tive com minha bisavó, de 91 anos. Foi uma experiência ótima, mas ao mesmo tempo triste. Ela tem tanta coisa gravada na memória, tanta coisa linda, tantos sentimentos... É tão bom poder conversar com alguém com uma experiência de vida como a dela, que viveu em tempos que eu talvez nunca vá imaginar como foram. Ela não me relatou fatos cronológicos, não me recitou sua biografia, contou coisas que achava interessante, talvez pra mim, talvez pra ela, certamente pra ambos. Histórias soltas sobre um passado rico, histórias lindas; lindas por sua pureza, lindas por sua simplicidade, lindas porque nunca mais veremos nada parecido...
Minha bisavó morou boa parte da vida em cidades de interior, cidades rurais, e é óbvio que a vida naquela época e naqueles lugares é completamente diferente da que levamos hoje e até da que ela mesma leva. Os relatos que mais ouvi dela foram de bailes simples, mas tão lindos que nunca se fez ou fará outros iguais. Grandes festas, com fogos de artifício e muito canto e dança, que começavam num dia e terminavam no começar do outro (dia que falo é quando o Sol está brilhando). Ouvi sobre homens lindos, verdadeiros príncipes, que a tiravam pra dançar. Em certo ponto da conversa ela me falou sobre um lindo cavalheiro que ela e todas as garotas da região cobiçavam e, quando ele resolveu escolher uma entre as dezenas de moças para dançar, foi ela. E ele recitou um verso pra ela! Ela lembra até hoje... Infelizmente eu esqueci, mas prometo perguntar pra ela e eternizar isso.
Em contrapartida a esse ar festivo e de namoros (obviamente não consumados) fiquei sabendo de um pai rígido demais, mas amoroso e que nunca encostou um dedo nos filhos, tal qual a mãe. Pai esse que não deixava as filhas (NOVE!) e o filho irem a bailes sozinhos, sempre com a mãe e quando ele conhecia os organizadores, banda e convidados. Um pai severo, mas nunca mau, pelo contrário, sempre muito cuidadoso e bom. E a mãe seguia o modelo. Pai músico que tocava nos tais bailes e ainda cuidava da escola, incluindo contratar professores. Conheci irmãos companheiros; namoros a braços dados que foram pegos em flagrante (sendo tão proibidos como eram!) e apenas um pigarrear afastou todo e qualquer braço. De presentes dados por amores secretos que geraram choro por não poderem chegar até em casa sem ser motivo de represália e com isso serem devolvidos.
Soube de histórias da escola, lanches às escondidas, recreios pulando corda; sobre brincadeiras de crianças de outra era, mas tão divertidas que nunca serão superadas. Um sítio quase dentro da mata que servia de local de férias. Fiquei sabendo de uma terra linda, a mais linda de todas, onde a Natureza, a diversão, o amor e a paz montavam o cenário. Tomei conhecimento também de duas mudanças de cidade, uma em uma carreta! E de uma pensão onde o amor aconteceu...
Um amor genuíno, que começou meio que às escondidas (apesar de novamente nada consumado) e terminou em casamento e que resiste até hoje. Um amor que, ao contrário das histórias clássicas e bonitinhas, terminou em divórcio e hoje o ex-companheiro é falecido. Mas quem disse que é só em finais felizes que existe amor eterno? Infelizmente não é assim que funciona, às vezes a vida é um pouco mais cruel. Um casamento cheio de infidelidades por parte dele e de muito amor da parte dela. Mas o amor próprio é sempre o mais importante e o divórcio veio. Mas quem disse que separação mata um sentimento? Não mata mesmo! Porém nessas histórias ela foi mais branda, e não entrou muito em detalhes, óbvio que não questionei. Seu fascínio eram os bailes, as festas, os amores, as belezas de uma época que já se foi pra nunca mais...
Ela narrou também problemas, dificuldades diversas com sogra, senhora essa que ela cita com todo respeito e ressalta as qualidades, mesmo tendo sido vítima de tantas de suas ofensas e armações. Quantos de nós conseguimos ser assim, hum? E conheci o triste fim da sogra, que enlouqueceu e acabou morrendo sozinha em um quarto (coisa de novela? Pois é... A vida tem dessas). E parte do trajeto dessa mulher enquanto cruzava aos poucos a linha da sanidade até mergulhar no insano completamente. Coisas como cobrir jornais como se fossem bebês e despedir-se deles antes de sair de casa; dar passeios no meio da noite, a pé; avisar sobre pães prontos para assar durante a madrugada; roubar um cachecol e cortá-lo ao meio, dando uma parte para cada filho; passar a tarde juntando gravetos alegando que um dos filhos estava sem e com isso sem fogo, quando ele tinha uma imensa pilha deles; entre mais alguns que não lembro agora...
Mas o mais lindo em tudo isso e também dolorido é como isso ainda é importante pra ela. Como ainda habita o coração dela, trazendo um maremoto de saudades que só não a afoga pela família que construiu de lá pra cá. É maravilhoso ouvir tudo isso e saber a riqueza de experiências que ela viveu, coisas que eu ou você nunca viveremos nem parecidas. Mas é triste ver como o tempo passa e tudo fica pra trás, é reduzido à simples lembranças em uma mente saudosa. É doloroso perceber que nossos anos de outro terminam e nem temos tempo de nos despedir, é duro aceitar que aquilo nunca vai voltar, a não ser em nossos sonhos.
Termino com trechos parafraseados dela:
Éde (ela me chama assim), era tudo muito lindo, não era como é hoje. Tinha uns bailes que era a coisa mais linda do mundo! A gente dançava até o outro dia! Que tempo bom! Eu sonho que to lá de novo, é lindo... Se eu fosse hoje lá, a gente sabe que ta diferente né? Mas se eu fosse lá eu conhecia! Era muito bom... Tu precisava ver!
Post em homenagem a Noralina Valin Keller, minha bisavó. Tenho certeza que ainda vamos ter muitas conversas como essa. Te amo muito! Grande beijo!
